gaveta
7.7.05
heart of glass
pensei para mim que não escreveria acerca dos meus gritos diários e crónicos contra a lenta e subtil baba esquizofrénica que se espalha no planeta, sobre o mal que se passeia em liberdade, sobre a ignorância e a imbecilidade, a ganância e a fome de ouro e a sede de sangue.
pensei que podia deixar dentro da gaveta e fora do blog a minha revolta, toda a raiva, toda a luta e todas as lutas contra a fome, a luta contra a sida e a luta contra o cancro, o combate às chamas, às cheias, às secas, tremores, tornados e tsunamis.
pensei que nada.
MAS NÃO CONSIGO
porque está tudo podre, louco e doente
porque ainda é mais fácil de matar do que amar
porque ainda é mais lógico roubar do que curar
porque é mais fácil fingir do que pensar
e nada me tirará o espanto de ver o mal cada vez que o vejo e de todas as vezes é assombroso ver a demência a acontecer e a facilidade com que acontece.
e é sempre com incredulidade que olho à volta
e tenho sempre de esfregar os olhos para saber que não é um pesadelo.
e sou estúpida, como vocês, tão estúpida, que daqui a uma hora, se não me for lembrado, estarei a pensar na minha infíma vidinha.
porque deixei que a minha idiotice classe média remediada contentinha se insurgisse no sofá
e no dia a seguir arrastasse o meu corpo para os saldos de verão.
não se tortura ninguém por ter a sorte que tem
mas sim, é mais fácil fingir do que pensar e ainda mais fácil pensar do que agir
mas não pegarei numa arma para me fazer ouvir e não terei fé em deuses e partidos vazios
e se me acusarem, confesso
e
se me perguntarem
apontarei sempre o dedo,
os 20 dedos que tenho nas mãos e nos pés.
são as circunstâncias.
mas o que está mal, que se mude!
e até as misses sabem que o melhor que se pode pedir é a paz no mundo
e não é pedir muito
este post não é só para hoje, é para ser usado ao peito todos os dias enquanto houver quem tenha medo de viver




