gaveta
11.11.05


o meu amor é dilúvio, o meu amor é vitrúvio, delícia, perícia, versículo botânico, todo balsâmico. o meu amor oferece-me cadernos, blocos e flocos, processos internos e escritos benditos. o meu amor é chuva ácida que rompe o plástico, o meu amor é força, pastilha, partilha e elástico. o meu amor é combustão, é feirante às quintas, delirante nas cintas. o meu amor opera-me em camarotes, é o graal dos lancelotes. o meu amor é curva e esquina, sombra, esquisso e concertina. o meu amor é um crianço, um gritanço de alegria, uma boca fantasia. o meu amor não tem nome, muda todos os dias. o meu amor é uma calma de chá, navegador em planos aéreos, ares e relentos etérios. o meu amor é insónia de mel nos dedos, podando arvoredos. o meu amor tece teias e morde pescoços. o meu amor são destroços. o meu amor é ferro fundido, temor ardido que dança comigo. o meu amor queda subindo, levita descindo. o meu amor tem segredos, luzes, truzes e trocas. o meu amor troca-me as voltas. o meu amor mergulha em destinos, não ouve nada, nem desatinos. o meu amor é bom de guardar. o meu amor é um disparate, o meu amor é um díspar arte. o meu amor tem berlindes, dribla pianos e doces de abóbora. o meu amor é aurora. o meu amor foi acaso a caso, num par e passo doble. aqueduto em movimento, o meu amor é alento. mas não sabe. nem missas nem metades. porque o meu amor é invento, engenho de asas enceradas, mil quedas voadas. entredentes estridentes para mais ninguém ouvir. o meu amor cobre-me com mantas, o meu amor é páginas tantas. o meu amor é explendor esplêndido, o meu amor é incênsio. o meu amor quer paz e o meu amor é capaz. o meu amor corta-me vazas e dá-me asas, vazos e anzóis. o meu amor são todos os sóis maiores. o meu amor é braço de rio largo, margem fértil de nilo dado a rá, ré, mim. o meu amor é luz colorida dum projector acendida. o meu amor é susto de terra, o meu amor é na relva. e traço entrelaço de trança, ao longe me afiança que tem esperança. e ao meu amor eu digo que sim. porque também sou o meu amor. e porque o meu amor nasceu como eu, agora. o meu amor piana-me piano de caudas várias em primeiro plano. não joga mas balança, não chora e faz piada. o meu amor é sageza, duende da natureza, julga-se doente e de rudeza. mas o meu amor é ilusão própria e os seus olhos só vêem em volta. e eu só vejo o meu amor. o meu amor é crú, panos e manos de destreza, pincéis de leveza. e depois é candura, mansura, quentura, bravura. é vulcão, é lava, fogo negro que não queima. trouxas de trazer ao ombro e orelhas mocas ao estrondo. saltitante e saltitinho; do falcão o vôo rasante para apanhar o ratinho. o meu amor é um morceguinho. o meu amor.



