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gaveta
4.12.05

o Abandono
chove a potes, vasos e cântaros. António recita a tabuada dos nove. Antero, incomodado com a cantilena, põe o chapéu e sai de cena. entra agora Augusto, de castanhas fumegantes e junta-se a António no canto das tábuas. não pára de chover mas Anacleto não se importa, tem a cabeça em forma de cone e a chuva escorre num instante. Ambrósio já não gosta tanto, circunferêncio de cucuruto, fica cabisbaixo na moínha, doi-lhe o reumático e a alminha. Aníbal continua o passeio, impassível no andar, e estóico estóico, aguenta, o que a vida tem para dar. Américo, pequenino, sonha muito com viagens, quer ser levado na torrente e perder-se a bruçejar. Arquimedes bem procura o guarda-chuva que lhe foge, quer sair e não pode, para ver o arco íris. Antiquário deixa-se ficar no solfá, desfolhando partituras, sabe bem que a chuva passa e portanto não tem nervuras. chega Adamastor, em passo largo, tira o capote e encostado, à lareira ouve tudo o que diz Abelardo. Abelardo já lá estava, esteve lá desde o princípio, mas Abelardo está calado, ouve a chuva sem sacrifício. Adriano, cinzentone, rejubila com a luz, a meio gás de vontade que é precisa a electricidade. nisto Alberto, indignado, homem poupado e de bom senso, quer o voto de cada um: se se desliga o candeeiro ou se se liga mais um. mas a Alberto ningém liga, especialmente Aguinaldo, que no alto da sua tolice brinca com o interruptor. quem não percebe nada é Abílio que chega do trabalho e depara com este teatro logo que limpa os pés ao capacho. apanhado de surpresa ficou Admiro que tinha usado o cachecol de Abílio sem pedir ao legítimo. esconde-se Admiro atrás do sofá mas já lá estava Analídio. em não havendo espaço para dois, é Analídio, mais pequeno, que sai fora da trincheira; obrigado a sair, olha Adamastor com medo. mas Adamastor não lhe liga porque quem ele quer é Andrete. e quis o destino que Andrete entrasse na sala naquele momento. corre Adamastor para ele e encosta-o à parede pelos colarinhos molhados, ele que, coitado, se encharcou no caminho. pregando-lhe uma valente estalada sêca na sua bochecha molhada, diz-lhe Adamastor sem clemência, Andrete, tu dás cabo da minha paciência. Andrete, pequeno aldrabão, pede tudo a todos e nunca dá, fica com letras e hipotecas em todas as bibliotecas e muitos deles ele enganou. Já teve más experiências mas também se safou; Analídio por exemplo, ficou sereno perante a fraude e Ângelo nem miou. mas desta vez foi ele quem se enganou. e é Adamastor que lhe esgana o gasganete. a maioria nem liga e uns já levam o hábito deste espetáculo. A sala pára, estarrece e espanta, ao ver Andaime entrar sem pedir; há muito que não se falam e ninguém o convidou a vir. Antiquário espreita por cima da página, Admiro por trás do sofá. pára tudo por momentos, solenemente na censura. mas Andai-me altivo e frio, faz que não se incomoda e instala-se no corropio. entrabula com António que entoa tabuada em verso. António não se descai e continua no seu canto. tenta então Abílio a ver como para a moda, mas Abílio com frio e sem cachecol corta-lhe as vazas num instante. Abílio, rapaz quente, não aguenta o inverno. ao contrário de Alterno que é quando está melhor. Alterno, o mais velho, está contra tudo e contra todos, antes de ouvir já diz que não, se lhe dizem sim ele levanta a mão. mas Alterno é respeitado e todos lhe dão razão. menos no que toca ao inverno chuvoso que a todos incomoda, mais ou menos, em proporção. quem não leva nada é Andaime que agora lê o jornal, ignorado e ignorando. quem também impõe respeito é o velho Anaronel, militar de carreira, que nunca chegou a coronel. mas a idade é uma factor que nesta sala impera, fala um de cada vez, só Aniceto berra. Aniceto, criançudo e pouco esperto, furioso com a chuva faz fita e dá o repto. é Aniceto quem provoca a carga d'água no salão, só Adamastor cala a tempestada num biberão.
entra agora magistral Zulmira triunfante, mãe de filhos, mãe de todos, corre tudo ao bofetão. seja novo, velho ou forte, não lhe cabe outra sorte senão a de acatar o pregão. acabou-se a brincadeira, pousam armas, aquecidos, ao colo da gorda mãe. e consolados, derretidos, são soldados adormecidos.

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