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gaveta
19.3.06

domingo crónico
Quando eu era menino, no liceu, obrigavam-nos a uma coisa chamada Mocidade Portuguesa, que incluía farda, marchas, discursos patrióticos e parvoíces correlativas. Chamavam-nos «filiados», e havia um livrinho ou opúsculo ou folheto com o desenho de um filiado feliz, de braço espetado à nazi
(a Mocidade Portuguesa incluía continência de braço espetado à nazi)
e junto ao filiado feliz, as palavras «Mandamentos do Bom Filiado». Dez, claro. Como os da Bíblia. lembro-me do Sétimo, «O bom filiado é aprumado, limpo e pontual», mas os meus problemas residiam no Primeiro, que ainda hoje me assombra. Rezava assim: «O bom filiado educa-se a si próprio por sucessivas vitórias da vontade», e eu quedava-me a repetir aquilo num esforço de compreensão que me esturricava os neurónios, só parecido com o embaraço que o padre da igreja introduzia no meu crânio ao pedir
- Meditemos agora na Paixão do Senhor
se inclinava, de olhos fechados, a meditar, e eu achava-me o pior dos imbecis porque não era capaz de de meditar em nada e ainda menos na Paixão fosse de quem fosse. Bem me inclinava, bem fechava os olhos e a meditação não vinha. Vinha sono, aborrecimento, a ideia de uma menina d tranças, mas meditações peva. O Senhor lá estava na Cruz, por trás do padre, todo sanguezinho, todo coroa de picos, todo sofrimento, espetadíssimo em pregos, e aquilo que uma pobre alma de seis anos podia partilhar com Deus era a sua incompreensão e o seu tédio. Para quê tanto escuro, tanto drama, tanta tristeza, qual a intenção de impingirem horrores de castelo fantasma, qual o motivo de me impedirem a alegria e a esperança? Tinha frio, tinha sono, tinha medo. O Diabo, de garfo e labareda, alaramava-me. E ainda pr cima devia comer a sopa toda para o Senhor não chorar: que o Senhor derramasse lágrimas por uma caldo verde excedia o meu entendimento. E como pois amar um Deus paradoxal, terrível nos castigos, mandando pragas e matando primogénito, que juntava, a estas características de serial killer, prantos convulsivos de dor no caso de eu recusar a canja? A esta preplexidade a Mocidade Portuguesa achou por bem juntar aquele primeiro mandamento vigoroso e tremendo «O bom filiado educa-se a si próprio por sucessivas vitórias da vontade», comigo a tropeçar no educar-me a mim próprio e, mais ainda, nas sucessivas vitórias da vontade. Como deveria fazer para me educar a mim próprio? Como raio se conseguem sucessivas vitórias da vontade? O que são vitórias? O que é a vontade? Resolvi começar pelo aprumado, limpo e pontual, que se me afigurou mais fácil. O limpo e o pontual com algum esforço, conseguia-o, o aprumado encontrei no dicionário, tudo coisas, aliás, em que o bom filiado se encontrava em sintonia com o Senhor, que portanto imaginei logo, de farda, espetando braços nazis. Talvez o Senhor fosse aquele velho, de trinta ou quarenta anos, que mandava na Mocidade Portuguesa, vigiando-nos, no centro do recreio do liceu, com olhinhos severos, em sentido marcial, duro, educado por si próprio, limpo, pontual, aprumadíssimo, com sucessic«vas vitórias da vontade no activo. Talvez o Senhor fosse aquele velho. vírgula: o Senhor era aquele velho. A borbulha no queixo diminuía-lhe um pouco a majestade, sobretudo porque não parava de coçar-se, mas ninguém é perfeito e eu aceitava o acne divino com alguma dificuldade embora com compreensão. Aceitava o acne dvino, aceitava a unha do mindinho a atormentá-lo, aceitava o tique que lhe arrepanhava a bochecha e alegrava-me não haver sopa nas redondezas para não lhe estimular as lágrimas, dado que me horrorizava a hipótese de o Senhor desatar em choros diante dos filiados, em pelotões perfeitinhos, confessando
- Não sou aprumado, limpo e pontual
admitindo
- Não me educo a mim próprio por sucessivas vitórias da vontade
a inclinar-se de olhos fechados numa meditação comprida, sem mandar pragas nem matar primogénitos, enquanto nós, os filiados, os bons filiados, de uniforme, barrete, cinto, toda aquela tralha, marchávamos perante ele no pátio do liceu, com um tambor e uma corneta viril, nós, os filiados felizes, recitando os Mandamentos em coro, tão limpos, tão pontuais, tão aprumados, saindo do portão a caminho da Praça José Fontana, com o seu coreto e o seu vendedor de castanhas, para além dos pombos municipais que fugiam espavorados diante da nossa determinação bélica.


O BOM FILIADO in Terceiro Livro de Crónicas
de António Lobo Antunes

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