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gaveta
11.3.06

este senhor, passageiro da air alfalfa nº 26831935, de outra vez o 63912273 e da última vez o número 34291824, mudou de país, para outro trópico mas não quis separar-se dos seus porcos.
os porcos seriam ainda a curta ligação a uma raíz que teria no seu território original. não quis ver-se livre deles nem os deixaria noutras mãos.
na primeira viagem veio a preparar o ninho, amaciar as palhas onde se viria a deitar; depois de tudo arrumado voltou, pelos porcos e outros parcos seres e haveres.
seria impossível a via terrestre e o caminho marítimo dava-lhe enjoo e perda de tempo. os porcos, que afinal eram só cinco, tinham de voar.
a custo emagreceu-os prometendo a si próprio que os engordaria com mimo logo à chegada, cioso das suas necessidades e conforto. e muito ciente disso, calculou o espaço e o tempo de cada porco. três semanas seriam o suficiente.
no dia da viagem, embalou-os mas causaram-lhe pena. talvez a claustrofobia e as oito horas de altitude os assustasse apesar do treino. decidiu deixar um para os outros terem mais espaço.
viria mais tarde, acertaria as últimas contas e depois não voltaria mais.
a vizinha cuidaria do porco restante e foi com dificuldade e pesar que se despediu do maior animal que tinha. voltaria para o vir buscar, prometeu-lhe.
arrancou para o check in, pagou a taxa de peso extra, despistou o serviço alfandegário com naturalidade e só ele soube que os porcos embarcavam na sala das malas, fragilmente etiquetados para que ficassem cuidadosamente de pé.
fez todo o percurso ora com confiança do sucesso da missão, ora com o coração nas mãos.
quando no tapete rolante viu a caixa e não ouviu qualquer som, correu para ela, pegou-a e pôs-se na fila dos taxis evitando abri-la, receando o pior.
não resistiu e ainda na espera rasgou a fita isolante para confirmar a matança dos porcos ou o seu triunfo. ao olhar para dentro em vez da mortandade de quatro tristes porcos, viu o berçário adormecido apenas.
o resto do caminho levou-o de dente à mostra, inchado de contentamento.
duas semanas depois, após o restabelecimento suíno e a construção de um elaborado sistema dispensador de alimento, comprou a passagem de ida e regresso e, animado com a ideia de reunir a família, levava já a caixa que acolheria o pai de todos.
tudo como previsto, pisou solo firme e deu-se o reencontro. igual ao que era quando foi deixado, o porco-mor contente preparou-se para o caminho. com o peso ideal para levantar vôo, aconchegou-se no recipiente e deixou-se dormir.
desta feita mais sereno, o criador partiu com tudo planeado até ao fim.
mas da última vez,
o planador caiu.


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