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gaveta
7.3.06

é vê-los debaixo da moínha que amola, a não levantarem os olhos para o cinzento do tecto, do pingo que nem o é a atirar-se ao chão, atirar-se contra as casa e caras que se abrigam na gola a pedir esmola ao deus dará. é vê-los a tentar resistir à abertura do guarda-chuva, jornal no braço ou noutros lados, de lenços assoados, assobios falados. é vê-los desatentos concentrados no desenho da calçada, é vê-los, aos poucos, de cabeça levantada para a varanda verdete enferrujada, os azulejos da fachada. é vê-los na hora de almoço pendurados na escada enrolada que não desemboca na rua, só noutro túnel mecânico. é vê-los sem desepero nos corredores da cidade, a passo lento largo, ao lado de uns e de outros sem companhia. sentados, encostados ao acento grave, circunspectos ou menos metediços para dentro. novelos tricotados em forma de botas de lã, pés fechados inodoros que batucam o chão ao ritmo dos carris e das buzinas de ar. é vê-los sem sabê-los e sem mais nada. ora estão cá hoje, amanhã vão de viagem, ora a tia doente em casa, o chumbo do miúdo, aquilo a não esquecer que se escreveu nalgum lado, o jantar descongelado, as flores, o sapateiro, a consulta, o recibo, o passaporte,o telefonema a reclamar, o casamento para a semana. o casamento com a semana todos os dias. o bilhete para o caminho, o bilhete caducado sem segredo, sem ninguém a quem passar, título inválido, transporte cuidado frágil, este lado para cima.

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